Sobre “repactuar” os direitos constitucionais e diminuir o SUS. 

por Nina Crintzs

O ministro da Saúde do governo golpista, Ricardo Barros, disse à Folha que o Brasil precisa “repactuar” os compromissos do Estado, garantidos pela Constituição, e diminuir o tamanho do SUS. Em outras palavras, deixar de garantir acesso à saúde gratuita à todos os cidadãos.
Acordei atrasada e vim direto para uma das muitas Farmácias de Medicamentos Especializados espalhadas por São Paulo, acompanhar o andamento do meu processo para receber um medicamento que garante o tratamento da minha doença, a Esclerose Múltipla. Leio a entrevista do suposto ministro no caminho. Chego aqui e encontro o lugar lotado de gente: em sua imensa maioria, são pessoas muito mais simples do que eu. Expressões cansadas. Gente ocupada com suas mazelas. Gente que, desconfio, ainda não teve tempo de ler a Folha.
Quando tive um surto de Esclerose na Escócia, tive uma aula de História à caminho do hospital. O taxista me contou que o NHS, o SUS do Reino Unido, sobreviveu à onda de privatizações da era Tatcher porque quando a Dama de Ferro ameaçou privatizar a Saúde ondas de greves explodiram pelo reino todo, manifestações enormes e expontâneas tomaram as ruas, e ela viu-se obrigada a recuar. O NHS continua sofrendo cortes e ameaças, mas a população o defende com unhas e dentes.
Em 2011 escrevi um texto sobre o SUS, quando o Lula teve câncer e a direita furiosa já mostrava sua bile, mandando que ele se tratasse no sistema público. Eu dizia que a grande classe média não conhece a saúde pública e defendia seus muitos pontos positivos. Repito: o SUS não se resume as emergências lotadas ou as reportagens sensacionalistas na TV. Há muita coisa boa, profissionais dedicados, programas que funcionam. É um sistema universal e a única saída para milhões de Brasileiros que não tem como pagar por planos de saúde particulares. Tem muitas falhas, certamente. Mas tem também acertos inegáveis.
Aqui, nessa Farmácia de onde escrevo, não encontro os falsários aos quais se refere tantas vezes o suposto ministro. Encontro gente de verdade que precisa, sim, ter seus direitos garantidos pela Constituição atendidos.
O Brasil não precisa “repactuar” os compromissos do Estado. Precisa aperfeiçoar esses compromissos. Precisa, por exemplo, que o remédio para Osteoporose da Dona Conceição, 63 anos, em falta hoje, esteja disponível quando ela voltar.
E nós, da esquerda – das muitas esquerdas, todas elas – precisamos começar a levar a sério o que está acontecendo no país. Ao ler uma entrevista como a do suposto ministro da Saúde, precisamos tomar as ruas, fazer barulho, parar as máquinas, contar ao mundo o que está se passando: um grave golpe de Estado que ameaça a nossa Constituição e que promete, abertamente, ceifar os direitos de nossos cidadãos. Precisamos exigir a saída do suposto presidente e a volta da Democracia. Se nos calarmos, seremos coniventes. E a História não vai nos perdoar. 
Quando vamos começar a afinar nossos discursos e nossas ações? No cavalgar do golpe, amanhã de manhã é tarde.

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