Sobre Steve Jobs e todos nós

by Nina Crintzs

Morto, o pai da Apple está em todos os lugares. Todas as matérias na TV são sobre ele. A internet, sobrecarregada, trava com tanta gente querendo prestar homenagem ao inventor do iPhone nosso de cada dia. Pelo mundo todo, velas eletrônicas são acesas em frente às lojas da marca que ele consagrou. Steve Jobs, empresário, inventor, visionário. Agora, elevado a categoria máxima de ícone de uma época. Pop star perde. Não vamos nos esquecer dele.

Não vamos nos esquecer dele porque Steve Jobs inventou o que nos define. As gerações X e Y, juntas, elegeram seu herói: o pai dos gadgets. O homem que uniu o design a funcionalidade, e que colocou o mundo em nossos bolsos. Não é verdade que o sonho acabou: esperamos todos, ansiosos, pelo próximo MacBook, pelo próximo iOS.

Não é o entrepreneur que celebramos. Enquanto uma multidão cada dia maior ocupa Wall Street em protesto contra as medidas absurdas de proteção do sistema bancário americano não pega nem bem chorar a perda do maior acionista da Disney. Não é a imagem do sonho americano, devidamente transferido da America profunda para o Vale do Silício, que nos encanta tanto. Não é a Pixar do box office que nos interessa.

Todos nós vimos Toy Story. Muitos de nós levamos nossos filhos ao cinema para ver os filmes da Pixar. E é aí que Steve Jobs é gênio inconteste, neta mistura de sonho e realidade onde tudo é bonito, tudo é possível.

Mais dos que os produtos da Apple, Jobs soube como poucos comercializar nossos desejos. Porque se o Bill Gates resolveu que cada um de nós teria que ter um computador, Jobs resolveu que este computador deveria ser bom, rápido e, talvez ainda mais importante, bonito. Todos nós desejamos um mundo mais bonito. Harold Bloom diz que Sheakespeare inventou o humano. Pois eu digo que Steve Jobs inventou o estar no mundo contemporâneo.

Alguns, os mais radicais, vociferam dos teclados de seus Macs que há pessoas mais importantes para serem celebradas no mundo. O Dalai Lama continua exilado. E notícias muito mais importantes para ocuparem o horário nobre: crianças passam fome na África, a água vai acabar em breve. E é verdade. É tudo verdade.

Mas as questões sociais demoram demais para serem resolvidas. Quem tem tempo para esperar? A ecologia foi seqüestrada por uma gente sem auto-ironia que parece decidida a levar a civilização de volta a idade de pedra. Quem tem energia para mudar o mundo? É para frente que a gente vai, de preferência com uma conexão 100 mega no wifi e um 3G decente.

Poucas coisas nos unem tanto quanto a necessidade urgente de um computador mais rápido, mais leve e mais cool. Atenção para essa palavra: cool. O cool é o novo hype. E Steve Jobs, barba grisalha, olhar penetrante, com o dedo indicador no queixo é o mais cool de todos os homens na foto da homepage da Apple. Todos nós queremos ser Steve Jobs.

Não vamos esquecer dele. E não vamos lembrar da personalidade irascível, da facilidade com que fazia subordinados chorarem. Vamos lembrar do cara que não terminou a faculdade, que morreu vitima de um câncer que nem todo o dinheiro do mundo conseguiu extirpar. Talvez por isso Steve Jobs, morto, seja ainda melhor. O mais cool de todos os homens é, finalmente, tão humano quanto qualquer um de nós. É assim que nascem os heróis.

Eu to triste, sim. E me pergunto o que vai ser do iPhone 6. E você, ta pronto para admitir isso?

PS: A idéia para este texto foi anotada num iPhone 4, o rascunho foi escrito num iPad 2 e a redação propriamente dita feita num MacBookPro. Amém.

Advertisements