PurpleSofa

It can always get worse.

Eu, o SUS, e todos vocês (sobre o texto anterior)

Queridos todos,

Tô surpresa, impressionada e comovida com a quantidade de gente que leu o texto e respondeu, comentou e compartilhou suas próprias histórias – tantas boas, outras nem tanto, algumas terríveis.

Fico feliz pelas pessoas que conseguiram vencer suas doenças ou, pelo menos, fazer valer seus direitos constitucionais. São histórias inspiradoras, tocantes mesmo. E olha que eu tenho a pele grossa… (metaforicamente falando, claro.)

E as histórias tristes me fazem pensar em quão distantes estamos do ideal. A vida é de uma aleatoriedade absurda. Já chutei a mesa, fumei três maços de cigarro, perdi o sono mesmo com todos os comprimidos do mundo. Tá tudo errado para todos nós quando tá errado demais para um só.

Tem mais de 1300 coments esperando por mim aqui – e eu prometo que vou ler um por um. Vai levar um tempinho, mas eu chego lá. Vou publicar tantos quantos forem possível, mas não vou conseguir responder todos. Espero que vocês entendam.

Mas por favor, continuem me escrevendo, perguntem o que quiserem: nomes dos médicos, tratamentos, dicas sobe a cor do meu cabelo. Eu respondo assim que der, ok?

E, olha, obrigada por esse carinho todo – dos amigos, dos conhecidos, de um monte de gente que eu não conheço. Eu tô bem. Eu tô ótima. Eu tô vivendo os 70% full blast.

A vida tem que ser uma festa, e o humor tem que vencer o medo – senão nada faz sentido, mesmo.

Cheers!!

Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto

Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.

Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.

Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.

O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.

O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.

A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.

O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.

O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.

Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.

Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.

Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.


Sobre Steve Jobs e todos nós

Morto, o pai da Apple está em todos os lugares. Todas as matérias na TV são sobre ele. A internet, sobrecarregada, trava com tanta gente querendo prestar homenagem ao inventor do iPhone nosso de cada dia. Pelo mundo todo, velas eletrônicas são acesas em frente às lojas da marca que ele consagrou. Steve Jobs, empresário, inventor, visionário. Agora, elevado a categoria máxima de ícone de uma época. Pop star perde. Não vamos nos esquecer dele.

Não vamos nos esquecer dele porque Steve Jobs inventou o que nos define. As gerações X e Y, juntas, elegeram seu herói: o pai dos gadgets. O homem que uniu o design a funcionalidade, e que colocou o mundo em nossos bolsos. Não é verdade que o sonho acabou: esperamos todos, ansiosos, pelo próximo MacBook, pelo próximo iOS.

Não é o entrepreneur que celebramos. Enquanto uma multidão cada dia maior ocupa Wall Street em protesto contra as medidas absurdas de proteção do sistema bancário americano não pega nem bem chorar a perda do maior acionista da Disney. Não é a imagem do sonho americano, devidamente transferido da America profunda para o Vale do Silício, que nos encanta tanto. Não é a Pixar do box office que nos interessa.

Todos nós vimos Toy Story. Muitos de nós levamos nossos filhos ao cinema para ver os filmes da Pixar. E é aí que Steve Jobs é gênio inconteste, neta mistura de sonho e realidade onde tudo é bonito, tudo é possível.

Mais dos que os produtos da Apple, Jobs soube como poucos comercializar nossos desejos. Porque se o Bill Gates resolveu que cada um de nós teria que ter um computador, Jobs resolveu que este computador deveria ser bom, rápido e, talvez ainda mais importante, bonito. Todos nós desejamos um mundo mais bonito. Harold Bloom diz que Sheakespeare inventou o humano. Pois eu digo que Steve Jobs inventou o estar no mundo contemporâneo.

Alguns, os mais radicais, vociferam dos teclados de seus Macs que há pessoas mais importantes para serem celebradas no mundo. O Dalai Lama continua exilado. E notícias muito mais importantes para ocuparem o horário nobre: crianças passam fome na África, a água vai acabar em breve. E é verdade. É tudo verdade.

Mas as questões sociais demoram demais para serem resolvidas. Quem tem tempo para esperar? A ecologia foi seqüestrada por uma gente sem auto-ironia que parece decidida a levar a civilização de volta a idade de pedra. Quem tem energia para mudar o mundo? É para frente que a gente vai, de preferência com uma conexão 100 mega no wifi e um 3G decente.

Poucas coisas nos unem tanto quanto a necessidade urgente de um computador mais rápido, mais leve e mais cool. Atenção para essa palavra: cool. O cool é o novo hype. E Steve Jobs, barba grisalha, olhar penetrante, com o dedo indicador no queixo é o mais cool de todos os homens na foto da homepage da Apple. Todos nós queremos ser Steve Jobs.

Não vamos esquecer dele. E não vamos lembrar da personalidade irascível, da facilidade com que fazia subordinados chorarem. Vamos lembrar do cara que não terminou a faculdade, que morreu vitima de um câncer que nem todo o dinheiro do mundo conseguiu extirpar. Talvez por isso Steve Jobs, morto, seja ainda melhor. O mais cool de todos os homens é, finalmente, tão humano quanto qualquer um de nós. É assim que nascem os heróis.

Eu to triste, sim. E me pergunto o que vai ser do iPhone 6. E você, ta pronto para admitir isso?

PS: A idéia para este texto foi anotada num iPhone 4, o rascunho foi escrito num iPad 2 e a redação propriamente dita feita num MacBookPro. Amém.

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 495 other followers